O presidente Lula (PT) determinou a realização de um levantamento dos cargos ocupados por indicação do centrão na administração federal. O objetivo é promover demissões pontuais como retaliação a parlamentares que contribuíram para as recentes derrotas do governo no Congresso. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), apesar de ter sido apontado como o principal articulador dos reveses, deve ser poupado neste primeiro momento.
As derrotas citadas são a rejeição, histórica, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF (Supremo Tribunal Federal), e a derrubada do veto presidencial ao projeto de dosimetria de penas. Ambos os episódios ocorreram no fim de abril. O projeto aprovado reduz as penas de condenados por tentativa de golpe de Estado, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A orientação no Palácio do Planalto é que as demissões ocorram sem alarde, de forma isolada e em cargos de menor escalão, na ponta dos órgãos públicos. A avaliação é que uma “exoneração em massa” funcionaria como um recibo público das derrotas no Diário Oficial da União. O levantamento dos nomes está a cargo da Secretaria de Relações Institucionais, e algumas demissões já começaram a ser executadas.
De acordo com integrantes do Planalto, as primeiras demissões atingiram indicados de parlamentares que se declaravam governistas, mas que vinham se distanciando de Lula e votaram pela derrubada do veto à Lei da Dosimetria. Diferente da votação para o STF, a derrubada do veto foi aberta. Com a definição dos palanques estaduais para 2026, o governo quer reduzir a influência de quem não apoiará a reeleição do presidente.
A estratégia é que a troca de indicados por aliados em postos estratégicos ajude o governo no chamado “voto de estrutura”. Para prefeitos, por exemplo, torna-se mais vantajoso apoiar parlamentares alinhados ao Planalto quando há aliados em cargos que liberam recursos e executam obras.
Em relação a Alcolumbre, a postura é diferente. Inicialmente, Lula teria ficado irritado e desejado demitir todos os indicados do presidente do Senado e de outros nomes do centrão que ajudaram a derrubar Messias. Foi a primeira rejeição a uma indicação ao STF em mais de 130 anos. No entanto, Lula optou por não tomar decisões precipitadas.
O governo enxergou na derrota de Messias uma possível bandeira de campanha antissistema, devido à aliança entre centrão e oposição para barrar a CPI do Banco Master. Assim, decidiu manter o diálogo com Alcolumbre. Após o presidente do Senado sinalizar que deseja um encontro com Lula para encerrar o assunto, o governo nomeou um indicado de Alcolumbre para uma diretoria da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).
A nomeação de Marcio Adalberto Andrade para a diretoria de Desenvolvimento e Infraestrutura da Codevasf foi acordada ainda na gestão de Gleisi Hoffmann (PT) na articulação política. O novo ministro, José Guimarães (PT), manteve o acordo. Em paralelo, o governo acelerou o empenho de emendas parlamentares de bancadas estaduais aliadas. Para o Amapá, estado de Alcolumbre, foram destinados R$ 249,2 milhões em emendas após a derrota de Messias. Para o próprio senador, foram empenhados R$ 21,7 milhões em emendas individuais.
A decisão de Lula foi de “seguir a vida” e manter as pontes com Alcolumbre. O governo depende do presidente do Senado para aprovar propostas importantes. Entre elas, estão as PECs (Propostas de Emenda à Constituição) do Suas (Sistema Único de Assistência Social) e da Segurança Pública, além do projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos. O fim da escala 6×1, prioridade do governo para a eleição, também precisa passar pelo Senado. A PEC está na Câmara e deve ser votada até o fim de maio. O Planalto precisará de apoio para aprová-la no Senado até junho, mês que será conturbado pela pré-campanha e pelo início da Copa do Mundo.
