Ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, 70, está de volta. Preso duas vezes pelos escândalos que atingiram o partido, mensalão e Lava Jato, ele quer se candidatar a deputado federal em 2026 por Goiás, seu estado natal. Não será o único mensaleiro, como foram chamados os condenados pelo esquema denunciado em 2005, que retornará às urnas. O ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado federal João Paulo Cunha também tentarão vagas na Câmara dos Deputados.
“Não estamos voltando para ter resgate de nada. É porque há uma necessidade de ampliar a bancada do PT”, disse ele em entrevista. Em duas horas de conversa por videochamada, Delúbio defendeu sua inocência. Com a bandeira do PT ao fundo, camisa polo vermelha, broche do partido e um chapéu-panamá, não chama o mensalão pelo nome como ficou conhecido, mas por “ação penal 470”, número do processo no STF (Supremo Tribunal Federal).
Para ele, a denúncia foi a porta de entrada para anos de perseguição política ao PT. Apontado como o operador do mensalão, sempre negou o pagamento de mesada a deputados aliados. Mas admitiu a existência de caixa dois em campanhas petistas e assumiu a responsabilidade pela prática. Foi condenado a 6 anos e 8 meses de prisão por corrupção ativa, cumpriu pena por mais de dois anos (sendo um ano e meio em prisão domiciliar) e recebeu indulto em março de 2016.
Dois anos depois, foi condenado a seis anos de prisão pela Lava Jato sob acusação de ter obtido empréstimos fraudulentos. A prisão foi revogada em novembro de 2019, quando o STF decidiu que a pena só poderia ser cumprida depois que todos os recursos da ação fossem esgotados, decisão que também permitiu a soltura de Lula naquele ano. Em 2023, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou a sentença por entender que a tramitação deveria ter ocorrido na Justiça Eleitoral e não na Justiça Comum.
Delúbio sustenta que não fez nada de errado, chama outros presos da Lava Jato de “colegas de infortúnio” e reduz muitas de suas agruras a situações “da política”. Ele diz não guardar mágoas nem mesmo de sua expulsão do PT, partido que ajudou a fundar e do qual ficou longe entre 2005 e 2011. Abraçado por Lula publicamente no início do mês, Delúbio recebeu menção de destaque durante encontro do PT em agosto de 2025. O ex-tesoureiro foi citado nominalmente pelo presidente em um discurso que pedia reparação pelos “erros que cometemos”.
Questionado sobre por que voltar agora, após ter se candidatado só uma vez em 1986, ele disse ter 40 anos na política nacional: 20 anos de sucesso e 20 anos com algumas dificuldades. “Passei os últimos 20 anos me defendendo de acusações falsas”, afirmou. Ele quer estar no Congresso para ajudar Lula a governar. “Não adianta ficar brigando com o Congresso se você não se dispõe a ser candidato”, completou.
Delúbio afirmou que não está voltando para ter resgate de nada e que a eleição não muda a sua vida. “A mesma Folha que fez a matéria com o Roberto Jefferson está me dando a oportunidade de explicar, depois de 21 anos, o que aconteceu em junho de 2005”, disse. Ele ainda negou arrependimento por ter assumido sozinho a responsabilidade pelo caixa dois e disse que não houve crime. “Não me arrependo de nada porque não fizemos nada de errado”, concluiu.
