Brasília é conhecida como centro do poder político, mas foi na música que a capital encontrou uma de suas expressões mais marcantes. Ao longo das décadas, diferentes gerações transformaram o cotidiano da cidade em som, revelando estilos e realidades distintas que coexistem no mesmo território.
Nos anos 1980, em meio ao fim da Ditadura Militar, jovens artistas encontraram no rock uma forma de expressão. Foi nesse contexto que surgiu a Plebe Rude. O vocalista Philippe Seabra afirma que o movimento punk deu o norte ao grupo. “Não tinha como ficar alheio ao que estava acontecendo. A banda nasceu dessa urgência”, completa.
Para Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, a cena nasceu de uma vivência coletiva. “O Capital começou junto com Plebe Rude, Legião Urbana e outros. Saíamos sempre juntos, frequentávamos festas e shows”. Ele aponta o tédio e o contexto do regime militar como fatores. “Havia uma sensação de estrangulamento”.
Dinho diz que as letras falavam do cotidiano e das angústias, sem saber que seriam compartilhadas por muitos. “Havia o desejo de desafiar os poderes constituídos”. O reconhecimento nacional veio de forma gradual. “Em 1986, estávamos vendendo centenas de milhares de discos”. Para ele, o sucesso foi uma surpresa.
Décadas depois, Dinho avalia que ‘Música Urbana’ traduz o espírito da turma. “Fala da rodoviária, da torre, da nossa inquietação”. No aniversário da capital, ele reforça: “Brasília está no nosso DNA. A cidade nos moldou”. Para ele, “as melhores bandas do país são de Brasília”.
Para a Plebe Rude, ‘Até Quando Esperar’ virou hino. Seabra lamenta que as letras ainda dialoguem com o presente. “Infelizmente muita coisa não mudou”. A música ‘Brasília’ sintetiza o amor e ódio pela cidade. No livro O Cara da Plebe, ele descreve a capital como uma utopia idealizada que revelou contrastes profundos.
Outras vozes da capital
Nos anos 1990, o hip-hop ampliou o retrato. O Câmbio Negro trouxe a realidade das periferias do Distrito Federal. O rapper X afirma que o grupo quis retratar “o povo periférico, pobre, marginalizado”. A estética era de protesto e conscientização.
X relembra o choque entre a percepção externa e a realidade vivida. “Quando tocávamos fora, muita gente achava que tropeçávamos em políticos. Nossa realidade era outra”. Para ele, o racismo e a violência ainda precisam ser combatidos. “Isso precisa ser falado, mostrado e combatido”.
Enquanto o rock nasceu entre jovens do Plano Piloto, o rap expôs as regiões administrativas, como a Ceilândia. O rapper afirma: “Cresci em barraco de madeira, sem saneamento. Queríamos mostrar que o povo periférico ainda hoje é tratado como cidadão de terceira classe”. A diversidade de vozes revela uma cidade de contrastes e transformações que seguem em curso.
