A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) reforçou sua identidade política ao gravar um vídeo, na quarta-feira (24), criticando o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
No cenário, Michelle empregou uma série de símbolos e, no discurso, mobilizou um repertório que une religião à ideologia conservadora. Por vezes, o cristianismo aparecia em um tom biblicista, com metáforas como “A verdade vai iluminar o que está escondido na escuridão das notícias falsas”. Em outros momentos, a religião aparecia com a transparência defendida.
Alguns exemplos de suas falas: “Não carrego rancor. Eu entrego tudo nas mãos de Deus”; “Perdão é libertação, não é obrigação”; “Meu futuro político está nas mãos de Deus”; “O meu Deus é o caminho, a verdade e a vida”. Em sua trajetória política, Michelle se notabilizou pelo diálogo com os segmentos evangélicos.
Segundo aliados, a ex-primeira-dama decidiu publicar o vídeo para se defender de ataques e informações falsas. Durante a gravação, ela relata uma ligação telefônica em que teria sido desrespeitada por Flávio. Michelle afirmou que ele foi muito ríspido.
O telefonema ocorreu em um contexto de disputas do bolsonarismo no Ceará. Michelle era contra a aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB), a quem credita a inelegibilidade de seu marido. Ela defendia o nome do senador Eduardo Girão (Novo) para o governo do Estado. A candidatura ao Senado pelo Ceará também é um ponto sensível: Michelle quer uma vaga para Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL, e o diretório do partido no Estado prefere lançar o nome do deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE).
Nas redes sociais, Flávio pediu desculpas à madrasta e afirmou que não teve a intenção de ofendê-la. Disse ainda que, sendo casado há 16 anos e pai de duas filhas, nunca desrespeitou uma mulher. No discurso de Michelle, chamou a atenção as dezenas de vezes em que ela falou “meu marido”. A menção a Bolsonaro admitia uma variação: “meu galego”.
A estratégia de Michelle não se apoiou somente no discurso. A luz é irradiada lateralmente, atribuindo uma tez serena à personagem. Em momentos específicos, a câmera aproximava-se do rosto de Michelle, enfatizando o discurso. A ação da ex-primeira-dama também esteve no cenário escolhido, com símbolos destacados no vídeo.
Entre os símbolos, estava a Estrela de Davi, emblema do judaísmo que representa o Escudo de Davi e a aliança entre Deus e o povo de Israel. Ao incluir o símbolo em cima de um livro, Michelle ressalta seu filossemitismo e cria uma representação para o discurso religioso.
Ao lado da estrela, surge a réplica de uma mão fazendo o “gesto do chifrinho”. Na Língua Brasileira de Sinais (Libras), o gesto significa “eu te amo”. Ao se tornar primeira-dama, Michelle se notabilizou por defender a inclusão das pessoas com deficiência. Na posse do marido, em 2019, fez seu discurso na língua dos sinais.
Em dado momento, Michelle conta a história e celebra os feitos do PL Mulher, do qual é presidente. Ela mostra, em fotos antigas, que Flávio foi bem recebido em eventos do setor. Em uma infografia, o mapa do Brasil aparece pintado de rosa, expondo a capilaridade do PL Mulher. Michelle aparece com uma réplica desse mapa.
Acima do mapa, os gestos de Michelle se articulam ao redor de uma caneta Bic azul. Trata-se de uma menção ao ex-presidente, que usava o objeto em eventos oficiais para sugerir simplicidade. Ao reivindicar para si a posse da caneta, Michelle sugere poder e proximidade com Bolsonaro.
Ao fundo, estão dispostos na parede uma série de honrarias recebidas pela ex-primeira-dama. São diplomas, certificados e condecorações. O cenário atribui autoridade a quem está discursando.
A estratégia política também se refletiu no vestuário. A camisa usada por Michelle tinha bordados com os Frutos do Espírito, encontrados no Livro de Gálatas: “mansidão”, “alegria” e “domínio próprio”. Desse modo, Michelle reafirmou sua identidade cristã.
